domingo, 6 de abril de 2008

O Blog de Clarice Lispector

Encontrei, empoeirado em uma prateleira da estante, um livro de Clarice Lispector, um pesado volume de 780 páginas. Lembrei-me que nunca o li inteiro.
Chama-se “A Descoberta do Mundo” e se não fosse coisa do tempo da máquina de escrever, poderia muito bem passar hoje por um blog, desses em que as matérias acumulam, crescem, evoluem e adquirem arquitetura sólida e bem maior do que a soma de seus pedaços.
São crônicas e outras matérias, que ela escrevia para o Jornal do Brasil desde os anos ‘70, entrevistas, contos, noveletas e pensamentos soltos, observações do cotidiano das ruas, de sua casa, seus filhos, coisas universais e coisas pessoais, até às vezes quase íntimas.
Ela dizia que “escrever é uma maldição” mas nunca acreditei que sentisse isso de verdade. Uma de suas pequenas mensagens é um pedido aos linotipistas, para que não corrijam o que ela escrever: “A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim”.
Era capaz de fazer cada leitor reviver emocionalmente suas experiências como se fosse ela mesma, e isso é a essência da arte. Cada texto dela é uma aula de redação.
Vou procurar um espanador e ver se consigo encontrar mais algum livro dela perdido na desorganização de minhas prateleiras. É uma benção ter uma memória que esquece certas coisas, e permite assim que a gente as descubra de novo e volte a saborear mais uma vez o prazer de ler um texto bom.

sábado, 29 de março de 2008

Sobre aqueles 4.000 Americanos - Vitória

Em um velho livro de poemas inglêses procurei estes versos de Robert Southey escritos no fim do século 18. Descrevem muito bem o que sinto quando leio que o número de mortos americanos no Iraque passou dos 4.000, além obviamente das centenas de milhares de civis iraquianos, velhos, mulheres e crianças (mas estes obviamente não contam, são meramente danos colaterais). Daqui há alguns anos alguma criança fará estas perguntas e terá estas respostas.

Robert Southey (1774-1843)

The Battle of Blenheim

It was a summer evening;
Old Kaspar’s work was done,
And he before his cottage door
Was sitting in the sun;

And by him sported on the green
His little grandchild Wilhelmine.

She saw her brother Peterkin
Roll something large and round,
Which he beside the rivulet
In playing there had found.
He came to ask what he had found,
That was so large, and smooth, and round.

Old Kaspar took it from the boy,
Who stood expectant by;
And then the old man shook his head,
And with a natural sigh,
“‘Tis some poor fellow’s skull,” said he,
“Who fell in the great victory.

“I find them in the garden,
For there’s many here about;
And often, when I go to plow,
The plowshare turns them out;
For many thousand men,” said he,
“Were slain in that great victory.”

“Now tell us what ‘twas all about,”
Young Peterkin, he cries;
And little Wilhelmine looks up
With wonder-waiting eyes;
“Now tell us all about the war,
And what they fought each other for.”

“It was the English,” Kaspar cried,
“Who put the French to rout;
But what they fought each other for,
I could not well make out;
But everybody said,” quoth he,
“That ‘twas a famous victory.

“My father lived at Blenheim then,
Yon little stream hard by;
They burnt his dwelling to the ground,
And he was forced to fly;
So with his wife and child he fled,
Nor had he where to rest his head.

“With fire and sword the country round
Was wasted far and wide,
And many a childing mother then,
And new-born baby, died;
But things like that, you know, must be
At every famous victory.

“They say it was a shocking sight
After the field was won;
For many thousand bodies here
Lay rotting in the sun;
But things like that, you know, must be
After a famous victory.

“Great praise the Duke of Marlboro’ won,
And our good Prince Eugene.”
“Why, ‘twas a very wicked thing!”
Said little Wilhelmine.
“Nay, nay, my little girl,” quoth he;
“It was a famous victory.

“And everybody praised the Duke
Who this great fight did win.”
“But what good came of it at last?”
Quoth little Peterkin.
“Why, that I cannot tell,” said he;
“But ‘twas a famous victory.”

domingo, 16 de março de 2008

Medidas Extremas

Para quem cursou o colegial nos anos ‘50 -- quando ainda se aprendia Shakespeare, Marlowe e Rabelais, história antiga, geografia econômica e matemática de limites e derivadas -- que preparava o caminho para o cálculo integral e diferencial, o nível das escolas e hoje é de apavorar. Os jovens que cursam agora o terceiro colegial, mesmo após 11 anos de estudos, não são capazes de fazer uma conta de dividir, ou mesmo multiplicar, e riem se alguém falar em PI ou em raiz quadrada. É até provável que seus professores também não saibam. Todos dependem das calculadoras.

Como a cada dia tudo passa a exigir mais precisões micrométricas, será muito difícil para esses jovens entenderem o conceito das dimensões grandes ou pequenas demais.

A precisão nas medidas sempre foi uma função da necessidade de cada época. Para se plantar e colher no século 9 a.c. bastava lembrar as datas aproximadas dos solstícios e estações do ano. Para se construir na época de Tales de Mileto, um número PI com o valor de 3 era suficiente para todas as necessidades.

Arquimedes, em 200 a.c. aprimorou o que Euclides inventou e sua matemática não mudou durante os dois milênios que o seguiram. Ele também calculou o número PI, em uma época em que não existiam os algarismos decimais de hoje, nem o zero. E determinou o seu valor (entre 223/71 e 220/70) correto até o equivalente a duas decimais, o que é ainda usado praticamente em quase tudo que calculamos hoje, ou seja, com um erro possível de apenas milímetro por metro.

Mas isso foi antes da tecnologia chegar às miniaturizações extremas que hoje se usam, ou aos números gigantescos necessários para calcular quantidades de partículas ou distâncias cósmicas. Existem até números especiais para esses cálculos, embora apenas teóricos. O “googol”, que vale 10 elevado à potência 100, e o “googolplex” que é tudo isso elevado de novo à potência 100. Mas mesmo um simples googol já seria suficiente para contar o número de partículas subatômicas de todo o universo.

A matemática dos números super-grandes e super-pequenos trabalha apenas com ordens de grandeza, pois não há espaço para valores exatos. Assim, o tamanho do “universo observável” é de 10^26 metros, ou seja 10 seguido de 26 zeros. Um inseto teria uns 10^-2 metros, algo como 3 milímetros. E o menor número significativo como medida, na natureza, seria 10^35 metros, ou seja, o número 1 precedido de um zero-vírgula e mais 35 zeros. Não me perguntem por que, achei no Scientific American (Nov 2007, pg.31).

Os engenheiros, práticos como têm que ser, desprezam valores sem significado útil. Afinal, se a gente está construindo uma parede de 10 metros, qual é o problema de haver alguns milímetros a mais ou a menos, que podem depois ser acertados na argamassa. Ou meia dúzia de decimais já são suficientes para fazer com que a cápsula espacial entre com precisão na órbita de Marte. Os matemáticos pensam diferente e continuam calculando o número PI com até dois bilhões de decimais e esperam que se construam computadores mais potentes, para ver se algum dia encontram algum padrão de repetição ou finalização que prove que números como PI e “e” sejam exatos ou dízimas periódicas.

Quantos estudantes de hoje chegarão a se interessar por assuntos como esses?

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O Voto da Rainha

A democracia da Grécia de Péricles é louvada até hoje como o começo da justiça política, através do voto. Mas pouca gente leva em conta que esse voto era tudo, menos popular. Democracia, mas só da elite. Só votavam os homens nascidos livres, proprietários de terras, cidadãos, pois as mulheres não tinham esse direito, por mais ricas e cultas que fossem, nem os jovens.
Nem os escravos, embora grande parte dos artistas, professores, escribas, contadores, cirurgiões, pudessem ser escravos, domésticos ou pertencentes à própria cidade.
Os reais eleitores eram portanto a elite dos patrícios, cidadãos e nobres, provavelmente pouco menos de 20% de todos os habitantes.
Encorajava-se a que fossem votados os mais ricos, donos de terra, e os mais cultos, por se achar que seriam mais competentes para governar. Os demais cargos eram preenchidos por uma loteria entre todos os cidadãos, cerca de 6.000 no caso de Atenas.
Os detentores desses cargos tinham total responsabilidade e podiam ser punidos por suas falhas. No caso dos militares, fracassos poderiam significar até pena de morte,
Aos demais, sobrava a pena do ostracismo, quando os eleitores escreviam o nome do “candidato” em uma casca de ostra. Se a quantidade fosse suficiente, ele era banido da cidade por um período de 10 anos.
Algumas dessas idéias resolveriam certos problemas nossos hoje.
Um dos sistemas eleitorais mais inteligentes, que muito me impressionou, foi o inventado no livro “In the Wet”, pelo escritor australiano Nevil Shute -- aquele que também escreveu a novela post-apocalíptica da morte vagarosa de todos os habitantes do mundo depois de uma hecatombe nuclear, começando pelo hemisfério norte e pouco a pouco se espalhando por toda a terra ("On The Beach").
Ele concebe um tipo de valor para o eleitor, que varia à medida que sua importância como cidadão aumenta.
Dessa forma um eleitor pode ter o valor de seu voto acrescido em seu valor, até 7 vezes mais do que o voto básico tradicional.
Cada cidadão que completasse 21 anos seria de imediato considerado um eleitor, pois com menos idade do que isso não se pode confiar na seriedade e discernimento para decisões tão importantes. Esse é o nível 1, o primeiro voto ou Voto Base.
O nível 2 é o Voto da Educação. É outorgado a qualquer pessoa formada em um curso superior, ou que atinja o oficialato, se for militar. É o reconhecimento ao esforço intelectual e à provável melhor competência em seu critério de julgamento.
O eleitor pode somar também ao seu título o Voto de Viagens ao Estrangeiro, ou nível 3, para quem tenha sido capaz de viver por mais de dois anos em um país diferente e trabalhar e se sustentar por sua própria conta.
O Voto Família é o quarto, e iria para cada um dos membros do casal que conseguisse criar pelo menos dois filhos até os 14 anos de idade, sem se divorciar. Transmite uma idéia de segurança, seriedade e estabilidade.
O nível 5 é o Voto de Realização, que é prerrogativa de quem construiu alguma coisa importante para sí próprio, para o Estado ou para outros. É dado a um industrial ou comerciante de sucesso, um profissional liberal de destaque. Algo para ser concedido a um Pitanguí, Antônio Ermírio ou Niemeyer. É simplesmente o reconhecimento à capacidade prática e realizadora da pessoa. Obviamente um presidente de empresa deverá ter melhor critério de julgamento do que a faxineira de seu escritório. Poderia ser dado a qualquer pessoa que fosse capaz de ganhar mais de 100.000 reais por ano... no ano anterior à eleição.
O nível 6 é o Voto da Religião, e é o único do qual eu discordei, pois até me surpreende a idéia vir do Nevil Shute, um ateu, engenheiro aeronáutico, ex-militar e materialista, escritor de “techno-thrillers”. Esse voto seria concedido a pessoas que de destacassem no âmbito espiritual, como líderes religiosos. Em minha opinião, acho que seria o ideal para os Bispos Macedos da vida, e seus outros bispos, pastores faladores, padres marcelos, milagreiros e curadores espíritas.
O último é o nível 7, que seria raríssimo, talvez apenas uma meia dúzia por ano, que o autor chama de Voto da Rainha, seria dado por Sua Majestade Real Britânica a quem ela julgasse que merece, por sua escolha arbitrária, sem necessidade de nenhum critério específico. Na realidade, seria uma condecoração ou honraria. Mas é necessário lembrar que “In the Wet” foi escrito nos anos 60 e a importância da Rainha era outra e a Austrália ainda era parte atuante do Commonwealth.
É claro que tal sistema é uma idéia que jamais será considerada, mas não se pode deixar de pensar que algo parecido com isso poderia dinamizar muito mais o processo eleitoral, provocando maior interesse pela política entre aqueles que estudam, lêem jornais e estão atentos às mudanças do mundo e ao caráter dos políticos de seu país. Seria reconfortante saber que o seu voto vai pesar mais porque sua opinião é respeitada como mais ponderada, pela comunidade.

domingo, 25 de novembro de 2007

"Domingo Triste" - a canção do suicídio

Quando Goethe publicou seu "Werther", provocou na Europa uma onda de suicídios, de gente que se identificava com a saída única encontrada para um grande amor não correspondido.
Menos conhecida é a história da canção húngara "Szomorú Vasarnáp", ("Gloomy Sunday", ou "Domingo Triste") escrita por Rezsö Seress lá por volta de 1925.
As editoras de músicas se recusavam a publicá-la, por ser triste e trágica de mais, tanto na letra como, principalmente, na melodia. Seress suicidou-se, sua mulher também e dizem que mais de uma centena de suicídios ocorreram tendo como causa direta o desespero dessa melodia. Casos como de uma secretária que foi encontrada envenenada, tendo nas mãos uma cópia da partitura. Durante a ocupação nazista de Budapest, foi proibida por ser o hino da tristeza causada pela repressão à alma húngara.
Como toda obra inspirada, a maioria das versões que encontramos hoje são "pioramentos" sobre a canção original, tanto na letra como na música. Há até uma versão bonita cantada por Billie Holiday e outra pela estrela do "Fantasma da Ópera". Mas nenhuma delas transmite e beleza trágica da arte do original de Seress.
Como eu, você não deve entender uma palavra de húngaro. Mas desafio a ouvir a versão cantada por Poká Angéla, acompanhada apenas por uma flauta em baixo registro. Asseguro que sentirá uma tristeza que aperta o coração e faz nascer lágrimas nos olhos. Bastam a música e a interpretação da artista. (clique no primeiro endereço abaixo. DICA: se o seu computador estiver vagaroso, acione a Pausa e espere que o YouTube baixe pelo menos metade da música, antes de ligar o Play, para evitar que a melodia fique entrecortada... )
O tema é a ausência de amor. Não de "um certo amor", mas a não existência de amor. Em certos versos, a tristeza vem das desgraças do dia a dia, guerras, mortes, um sofrimento que parece não ter remédio. Em outros, um poema chama alguém para que a veja morta na igreja, entre muitas flores, crepes, padres e cantos, e onde ela o espera de olhos abertos para vê-lo mais uma vez, mas não há nenhum lamento nem queixa, só muita tristeza. Tétricas e pungentes ambas as letras... Para sentir esta canção é preciso entrar nela, aceitá-la, re-viver o que seu autor viveu.
Anotei três endereços no YouTube onde as versões são mais próximas do original. Se o dia estiver como este domingo hoje (25/11/07), cuidado para não sucumbir à sugestão da tragédia. Mas a beleza vale o risco.
As outras versões têm menor qualidade, mas são mais autênticas, pois usam a partitura original do piano e do violino.
Endereços:
http://www.youtube.com/watch?v=LZZlvHPO2T4&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=HAzJ_7CeWbc&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=TiOyvxgcob4&feature=related

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

"Seven, that's the time we leave, at seven"

Einstein explicou que à medida que o trem se afasta, o cumprimento de onda do apito que ouvimos aumenta, e isso reduz a freqüência e cria aquele som romântico, melancólico, que nos convida a viajar para lugares distantes. Hoje não tem mais. Os trens puxados por diesel-elétricas não têm apito a vapor, só têm aquela grosseira buzina de ar comprimido que nos assusta abruptamente como uma flatulência estentoriana. O trenzinho se foi, e com ele o romantismo sonhador de "Sentimental Journey".

Ciência da Fé

O conceito de Deus é meramente semântico, a humanidade ainda se mortifica e se mata por disso. Que diferença faz se, de uma sopa caótica, as forças da Física armaram o big bang, ou se um Ser, imaginado à semelhança do homem, criou em seis dias tudo isso que está aí. O mistério da existência é o mesmo, tanto para um como para o outro, e continua desafiando a ciência, que a cada dia inventa uma nova hipótese, ou a fé, que aceita qualquer absurdo, desde que seja acompanhado de certos gestos e sussurros apropriados.