sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O fim do papel?

A Humanidade deve tudo o que é ao fato de poder registrar sua existência em meio perene. Somente as civilizações que documentaram suas histórias têm reconhecimento hoje. Aquelas que passaram suas experiências meramente através da tradição oral quase não chegaram ao nosso tempo, e o pouco que chegou é distorcido e amoldado às diversas épocas e valem menos do que os pedaços de cerâmica jogados fora, utensílios de cozinha e seus próprios ossos, meros vestígios arqueológicos.
Ainda tenho em casa discos de massa de 78 rotações, “long-plays” de vinil, fios e fitas magnéticas, cassetes, discos floppy de computador de 8 e de 5 polegadas. São agora curiosidades tecnológicas porque não tenho mais os dispositivos que dariam acesso ao seu conteúdo. E os meus filmes em 8, super-8 e 16mm? Tenho ainda 3 projetores Carroussel Kodak que eram um luxo na minha época de executivo¸ e centenas de slides, trambolhos que eu nem tento rever, pois já não existem as lâmpadas certas nem outros acessórios,
Hoje tudo isso são informações quase totalmente perdidas, pela dificuldade em se conseguir dispositivos que as reproduzam. O disquete de 3,5 está em seus últimos estertores e os CDs e DVDs já cedem lugar às vantagens das memórias flash e outras tecnologias que aparecem a cada mês nas colunas do Scientific American.
Mas o papel ainda é o rei absoluto. Os papiros dos primeiros livros das religiões, as catilinárias de Cícero, a Carta Magna, os contos de Canterbury e a Carta de Caminha estão aí por que foram registrados em meios simples e duradouros.
O fato é que o que não ficar em papel vai ser esquecido, pois os novos meios de registro têm tempos de influência cada vez mais efêmeros.
É claro que haverá registro dos documentos e dos acontecimentos de maior importância, política, guerra, que sempre serão re-gravados nos novos meios.
Mas, e a notícia pequena? O atropelamento do operário? E o poema que sua netinha de 10 anos escreveu? Aquele lindo desenho que ela fez e que vai sumir na hora em que você desligar o Paint? Você não vai mais encontrar daqui a 20 anos no fundo de uma mala ou perdido dentro de um livro como uma flor seca. Tesouros nunca serão re-descobertos, notícias nunca serão relembradas.
Abra um jornal amarelado de cem anos atrás, leia sobre o novo filme de Greta Garbo no Cine Alhambra e o lançamento do novo modelo A da Ford por três contos de réis. Veja as páginas de moda, com aqueles vestidos pesados e chapéus gigantescos no Jornal das Moças. Está tudo no papel. E mais e mais a cada dia, per omnia secula... Não esquece nada, nem escolhe o que deve ficar.
O jornal impresso é o único registro do dia a dia em todos os lugares do mundo. As notícias do rádio e TV morrem momentos após serem divulgadas. Só o livro, o jornal são perenes e você não precisa ter toca-discos, projetor, ou computador para consultá-los.
Basta seus olhos.

Um comentário:

Cama disse...

Merlin tem toda a razão.
As bases eletrônicas não mantém a memória. A menos que estejam sendo re-copiadas a cada tempo sobre novas bases. Se não, elas se deteriorarão, além das oytras razões de não acesso expostas pelo Mestre.
Entretanto, caro Merlim, as novas gerações não se importam com a existência de memórias.

LAC.