Há alguns anos, em um dos raros encontros com pessoas de minha família, um meu irmão conseguiu me driblar e pagar a conta do almoço antes que eu tocasse na minha carteira. Quando protestei, ele me disse: “Não faz mal, da próxima vez você me paga uma lagosta à Thermidor.” Mas já se passaram quase duas décadas e a ocasião nunca apareceu, pois quando às vezes nos encontramos não há restaurantes com lagosta, por perto. Quando nos encontramos em Recife, acertamos para o dia seguinte, mas um acidente familiar obrigou-o a voltar antes que minha dívida fosse saldada.
Mas eu não sabia bem o que era "um Thermidor”. E fui aprender, como sempre faço.
A Revolução Francesa queria acabar com tudo que fosse tradicional e resolveu também melhorar o calendário, porque tinha nomes de imperadores e deuses romanos, como Marte (março), Saturno (sábado), Julio Cesar (julho), Augusto (agosto)... e criar meses de 30 dias exatos e semanas de 10 dias. Os dias da semana eram ordenados com os nomes de primidi, duodi, tridi... até o nosso domingo, que era decadi. E os meses eram descritivos de suas épocas, como Vendemiere, Brumaire, Frimaire, Nivôse, Pluviere, Ventose... obviamente ligados a neblina, frio, neve, chuva, vento, inclusive o de Thermidor, o mês do calor, o segundo mês da estação do verão. Os trinta dias do mês também tinham nomes individuais, de frutas, plantas, animais e outras coisas agrícolas. Assim, alguém poderia dizer: “nasci em uma quatridi, mangericão (dia 14) do mês de Fructidor”. Simples, não? Bem coisa de francês. Mas essa insanidade vigorou por 8 anos, (de 1793 até 1801) até a lucidez fazer voltar o antigo calendário gregoriano, mais bagunçado porém mais gostoso.
Ah! E a lagosta? Diz a lenda -- certamente falsa como toda a história francesa -- que foi Napoleão quem inventou. Dizem também que a melhor Thermidor é servida no “Café de Paris”, para quem quiser ir até lá conferir.
Para desmistificar em sua casa, se você puder comprar uma lagosta e souber prepará-la sem que vire estopa, vai aqui a receita genérica: farinha, manteiga, leite (um bechamel comum...), creme, gemas, champignons em fatias, estragão, mostarda, páprica, chalote (cebola roxa), caldo de peixe, queijo gruyére ralado (se quiser economizar use parmesão), sal e pimenta. O resto é arte. Ah, e a lagosta, óbvio, que deve ser cortada em duas partes, de comprido, temperada e assada em chapa até amolecer, retirada da casca, cortada em pedaços, coberta de molho e gratinada...
Se realmente levar a sério, é melhor entrar no site abaixo, que mostra passo a passo, com fotos, e em francês, é claro.
http://www.meilleurduchef.com/cgi/mdc/l/fr/recettes/homard_grat_ill.html
Bon appetit!
domingo, 28 de outubro de 2007
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Um comentário:
Sabe você que eu não entendo niente de cinema, né? Mas vou encaminhar o texto para um conhecido do meio.
Aqui hoje faz um dia feio, nublado e quente. Logo hoje, que levantei da cama pronta para uma fotos no cemitério da Consolação. =o) Ou chove ou sai de cima, essa indefinição do tempo está de matar.
Take care.
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